A saga dos meus “Apple ID” do Dot Mac ao iCloud

Não é algo comum, mas dessa vez precisarei fazer isso. Antes de começa a escrever, vou explicar o próprio artigo. O texto estará dividido em duas partes. Uma primeira bem mais técnica que tem como intuito posicionar historicamente os fatos e ao mesmo tempo explicar tecnicamente como a evolução do serviço Dot Mac (.Mac), que posteriormente se transformou em MobileMe e finalmente iCloud, interferiu no meu Apple ID. A segunda parte fala sobre minha recente unificação forçada do meu Apple ID. Essa parte é menos técnica, mas um pouco confusa também para usuários mais leigos. Apesar do excesso de termos técnicos, nas duas partes, tentarei ser o mais claro possível para que eu possa ajudar pessoas na mesma situação que eu.

Primeira Parte
Como a transição do Dot Mac para o iCloud interferiu no meu Apple ID

Antes mesmo do iPhone, a Apple já vendia conteúdo on-line na sua loja virtual, que no princípio se chamava iTunes Music Store. As músicas vendidas lá tinham como público alvo os pioneiros compradores dos primeiros iPods. Nessa época as lojas eram restritas a poucos países e o Brasil não era um deles. Estamos falando do ano de 2003. Mas no meu caso a experiência começou em 2005. Sem uma loja brasileira, precisei encontrar uma forma de comprar músicas. Para fazer isso, utilizei um cartão pré-pago vendido nos Estados Unidos e criei a conta com endereço real de um parente.

Naquela ocasião era possível utilizar um email qualquer para criar um usuário, atualmente conhecido pelo nome Apple ID. Utilizei o meu Gmail. Tudo funcionou tão bem que com o tempo passei também a comprar seriados de TV. Comprei vários episódios do Lost que no Brasil não existia nem na TV e muito menos nas locadoras. Os episódios estavam obviamente disponíveis ilegalmente, mas os que me conhecem há algum tempo conhecem também minha opinião a esse respeito.

Mais adiante, quando assinei o serviço Dot Mac da Apple, ganhei um email com terminação @mac.com. Por motivo de simplificação será referido daqui por diante neste artigo apenas como @mac. O serviço que contava com vários outros recursos era, na figura do email @mac, também um Apple ID. Ou seja, passei a ter dois Apple ID. O antigo Gmail e novo @mac.

Como eu ainda mantinha algum crédito e também algumas compras vinculadas ao Apple ID antigo, jamais migrei plenamente meu conteúdo da iTunes Store para o @mac. O meu Dot Mac era utilizado como email, serviço de calendário, etc., mas não como Apple ID na loja virtual da Apple.

Apesar dos dois IDs, tudo estava relativamente sob controle. A situação começou a se complicar quando a Apple decidiu encerrar o serviço Dot Mac e migrar os clientes para um novo serviço chamado MobileMe. Dentre outras mudanças, meu antigo email @mac agora ganharia um clone com a terminação @me. Na ocasião não ficou muito claro para mim, mas nesse ponto começaram os problemas que me afetariam quando da recente migração para o iCloud. Vamos entender isso mais adiante.

Durante os últimos dias (diria semanas) li todos os artigos/FAQ disponibilizados pela Apple explicando cada processo de migração. Do Dot Mac para MobileMe e do MobileMe para iCloud. Apesar de não concordar com algumas das decisões da Apple, eu finalmente entendi o que estava acontecendo com meus IDs.

Sem saber, o meu ID @mac foi criando automaticamente assim que assinei o serviço Dot Mac. Ocorre que para Apple o ID e email foram um dia coisas distintas. O ID era um termo (um nome de usuário qualquer) que na época poderia ser também um email. Eu mesmo usava “vladcampos” como ID em conjunto com o Gmail. Somente algum tempo depois a Apple nos obrigou a usar sempre um endereço de email e tive que mudar meu ID definitivamente para o email @mac. Porém a lógica permaneceu a mesma. O ID era apenas uma palavra, que por coincidência (ou obrigatoriedade) tinha agora uma arroba no texto.

Quando ocorreu a migração do Dot Mac para o MobileMe, ocorreu também a clonagem dos meu antigo @mac em um novo @me. Mensagens enviadas para qualquer um dos dois sempre chegariam à mesma caixa postal. Eu poderia também escolher a partir qual deles enviar as mensagens.

Porém essa unificação ocorreu apenas para os usuários que tinham o serviço Dot Mac ativo e em uso na ocasião.  As pessoas que estavam com o serviço cancelado não foram portadas para o novo MobileMe. E o pior é que mesmo sem o serviço Dot Mac ativo, essas pessoas poderiam seguir utilizando o email @mac como Apple ID.

No meu caso posso mudar o endereço de envio de mensagens de email de @me para @mac (e vice-versa), mas não posso mudar meu ID porque qualquer endereço da Apple é automaticamente um ID. E o meu @mac já existia enquanto ID quando surgiu o meu @me clone dele. Ou seja, o meu antigo @mac continua sendo meu ID válido.

Agora pense nas pessoas sem conta ativa na época e que não foram migradas para o MobileMe. O ID delas na loja continua sendo um @mac e o email funcional é outro qualquer. Não foi o meu caso, mas existem sim contas @mac desconectado do seu par no @me. Está percebendo a confusão gerada pela Apple?

Ficou tudo tão confuso com essa migração que se eu utilizar o @me para me conectar a iTunes Store ou ao site de gerência do Apple ID (http://appleid.apple.com), ele automaticamente mostra meu ID como @mac e não como @me. E, como já dito antes, não tenho opção para mudar isso. No meu caso, não existe um ID com o email @me. Em minha opinião a Apple deveria ter migrado os IDs @mac para @me ou ao menos dado essa opção aos usuários.

As coisas se complicaram ainda mais com a migração do MobileMe para o iCloud. O iCloud é um serviço que também precisa de um Apple ID, que pode ou não ser o mesmo ID usado no iTunes. No meu caso, o ID herdado do extinto Dot Mac se transformou em ID para o iCloud e o outro ID (Gmail) passei a usar na iTunes Store. Algumas pessoas têm um terceiro ou quarto ID. E eu também acabei criando um terceiro ID, mas há algum tempo eu estava querendo simplificar ao máximo as coisas. Não estava contente com tantas contas separadas. Vamos entender como organizei a cassa na segunda parte do artigo. Porém, para concluir essa primeira parte, vamos entender o que fiz com minhas contas de email, iMessage e FaceTime.

Como não há como migrar o ID @mac para @me, resolvi voltar os serviços todos para o @mac. Assim padronizei tudo. No Mail do Mac foi fácil. Basta alterar o endereço e as configurações de @me para @mac. Até esse final de semana eu não havia descoberto como fazer a mudança no email do iOS, mas recentemente descobri. Não há como alterar o endereço nas configurações, mas basta usar o endereço @mac ao cadastrar uma conta de email no iCloud. Então excluí a antiga conta @me e criei a nova @mac no iPhone e no iPad. No iMessage e FaceTime o raciocínio é o mesmo. Basta configurar com o @mac.

Na interface web do Mail é possível também definir o @mac como endereço de envio padrão. E assim o fiz. Então agora estou 100% @mac. Do ID aos emails. Em outras palavras, 100% Classic Apple. A mudança vai confundir algumas pessoas no começo, mas ao longo do tempo se resolverá sozinho. Não preciso avisar ninguém sobre a mudança, pois todos podem continuar mandando mensagens para o meu @me sem problema algum. Como as contas são unificadas, vou receber os emails independente do destinatário escolhido: @mac ou @me.

Segunda Parte
Como unifiquei minhas compras num único ID gastando o mínimo possível

Alguns parágrafos acima eu revelei que tinha criado um terceiro ID. Isso aconteceu pois o antigo ID Gmail continuava vinculado a um endereço e dados dos Estados Unidos. O mesmo endereço também estava vinculado ao @mac.

Quando a Apple finalmente abriu sua loja virtual de músicas no Brasil percebi que era chegada a hora de migrar minha conta para o Brasil e fui isso que eu fiz. O problema é que a migração é repleta de efeitos colaterais. O mais evidente é o desaparecimento dos aplicativos comprados. Eles desaparecem da interface do iTunes e da tela de download de antigas compras no iPhone. Eles de fato permanecem lá, mas não podem ser vistos. Não há uma forma intuitiva de interagir com eles. Falei bastante sobre isso no iTech Hoje 13. Recomendo que escute.

No fim acabei devolvendo minha conta para a loja estadunidense. Na ocasião criei também um terceiro ID para minhas compras na loja brasileira e por essa razão terminei com a seguinte estrutura. Antigo ID @mac na loja estadunidense para uso no iCloud, porém sem realização de compras. Antigo ID (Gmail) na loja estadunidense, utilizado para realizar compras. Além desses dois, o novo ID na loja brasileira. Porém nunca me senti confortável com esse novo ID brasileiro e nunca realizei nenhuma compra além dos testes que realizei na loja brasileira.

Depois de ter aberto alguns chamados na Apple e lido na web várias tentativas frustradas de migração de contas, resolvi radicalizar. Tomei essa decisão, pois quanto mais dinheiro eu colocasse em cartões pré-pagos estadunidense, mais eu estaria dificultando minha vida no futuro.

Verifiquei quantos e quais aplicativos pagos eu realmente utilizava no meu dia-a-dia e notei que eram muito poucos. Eu tenho muita coisa que comprei ao longo dos anos, mas muito pouco é essencial. Por exemplo, o “pacote iWork” para iOS nunca utilizei de verdade. Tinha alguns documentos lá, mas nada que eu realmente precisasse. Avaliei cada um dos aplicativos pagos e cheguei a conclusão que trinta a quarenta reais resolveriam meus problemas de recompra. Pouco dinheiro para resolver de uma vez por todas essa dor de cabeça que a Apple me criou ao longo dos anos com sua louca política de IDs.

E já que eu faria isso, optei por recomeçar tudo. Iniciei apagando todos os aplicativos do iTunes. Depois excluí o backup do iPhone no iCloud. E finalmente restaurei o iPhone. Os que conhecem minha paranóia com backup estão agora arrancando os cabelos. Como pude apagar o backup e os Apps do iTunes? E se algo desse errado?! Na verdade não havia como dar errado. Os dados do email, calendário, contatos, tarefas e notas estavam e estão na base online do iCloud. Tudo que eu tenho no App do Evernote vem da sua base também online. Livros do Kindle todos nos servidores da Amazon. E assim por diante. Cada App tinha suas informações em algum lugar na nuvem. Então era só instalar tudo na nova conta e baixar os dados. E foi isso que fiz. E deu tudo certo!

Depois de restaurado o iPhone, assinei o iCloud com meu ID @mac e comecei a baixar novamente todos os Apps de graça que eu tinha. Obviamente anotei tudo antes. Depois recomprei os poucos que eu sabia que precisaria. Sendo o mais importante deles o 1Password. Comprei apenas a versão para iPhone. Eu tinha a universal, mas nunca usei no iPad. Desnecessário, portanto. Também comprei o WhatsApp, Camera+, Downcast e outros poucos de um a dois dólares.

Em pouco tempo meu iPhone estava totalmente funcional com um único ID para o iCloud, iTunes, iMessage e Facetime. E tudo na loja brasileira vinculada a um cartão de crédito brasileiro. E a partir desse ponto só comprarei aplicativos, músicas, etc., a partir dessa conta.

Repeti posteriormente o processo no iPad, que exigiu um cuidado especial. Eu assino as revistas National Geographic e sua variante Traveler. Cancelei antes as assinaturas e depois de restaurado o iPad, assinei novamente as revistas já com o meu cartão brasileiro. No caso da revista The Economist, o processo exige apenas a inclusão do log-in e senha, pois minha assinatura foi feita no site da revista e não pelo iTunes.

Resolvi manter no iPad apenas os Apps essenciais ao meu trabalho e diversão diários. Foi ótimo! Estou agora com pouquíssimos aplicativos nele!

Faltava a ultima e mais cara das etapas. A MAS (Mac App Store), loja da Apple para o Mac. Eu começava a criar no Mac o mesmo problema que vinha me tirando o sono no iPhone e iPad. No Mac eu já tinha comprado através da MAS o Lion, GarageBand, iMovie e iPhoto da Apple. Além deles, o Pixelmator e o Piezo. E de forma alguma eu pretendo recomprar esses aplicativos.

Minha estratégia foi migrar todos os aplicativos gratuitos e à medida que novas versões dos pagos forem surgindo, realizarei a compra. Exclui o Evernote, Kindle, Caffeine e alguns outros gratuitos da loja estadunidense, assinei MAS com a conta brasileira e baixei novamente todos os aplicativos gratuitos.

Sim, gastei algum dinheiro na recompra de aplicativos e para algumas pessoas pode ser algo caro demais. De minha parte, fiquei bastante contente com a unificação e existe sempre a possibilidade de instalar a partir da conta estadunidense este ou aquele aplicativo mais caro que ainda não foi recomprado na loja brasileira.

O objetivo desse artigo, portanto, é apenas explicar como funcionam os IDs @mac.com e @me.com e contar a história de um usuário Apple punido pela empresa, pelo simples fato de ter sido pioneiro.